Racismo “padrão-FIFA”?

   “Falar de futebol para mim é sempre motivo de alegria!” Errado, infelizmente nem sempre é assim. Eu realmente gostaria de remover as aspas desta frase e torná-la verdadeira, como quando a utilizo em outras oportunidades, mas em alguns parcos momentos neste esporte temos de falar de futebol substituindo o ato de comemorar pelo ato de lamentar e este lamento é sobremaneira profundo.

   Mal começou o ano de 2014 e eu já sou forçado a vir aqui falar, não de gols, não de gênios da bola, não de títulos e tampouco da Copa do Mundo. Não, meus caros, sou obrigado a vir aqui para falar sobre racismo; sobre os impressionantes já três casos em 2014, um para cada mês do ano em curso! Há bem pouco tempo atrás o volante Tinga, querido de muitas torcidas no Brasil e campeão por onde passou, inclusive da Libertadores da América pelo Internacional, dono de uma carreira sólida e invejável, teve de ouvir a torcida do “poderoso” Real Garcilaso do Peru reproduzir, ora vejam só, o guinchar de macacos a cada vez que Tinga tocava na bola. Segundo consta, um dirigente celeste disse ter visto um pai ensinar a seu filho na arquibancada como fazer o mesmo som. Que tipo de pai ensina e induz o próprio filho à tamanha idiotice? E do que não será capaz esta criança, caso absorva a torpeza ensinada pelo pai? Que Deus proteja esta criança!

   E se já parecia suficientemente revoltante a incidência do racismo num país vizinho, eis que um estulto e ignorante torcedor do Mogi Mirim, aqui no Brasilmesmo, sentiu-se no direito de vociferar contra Arouca, do Santos, (um dos melhores volantes do país) a palavra “macacão”. Este pobre coitado certamente não sabe (e aqui nem vou citar os maiores ídolos do futebol que em sua grande maioria são negros como Pelé, que não admiro como pessoa, mas respeito como atleta que foi) que o maior jogador a vestir a camisa do Mogi e, inclusive a presidir o clube foi (e este eu admiro) Rivaldo, craque e negro! E se a sua cota de revolta chegou ao limite, aguarde mais um pouquinho porque na mesma semana o árbitro gaúcho Márcio Chagas da Silva ouviu ofensas racistas ao apitar a partida entre Veranópolis e Esportivo e, além disso, teve a lataria de seu carro danificada e “decorada” por bananas.

E o resultado disso? Punições, quando ocorrem, são extremamente brandas como a do Esportivo, que só terá de pagar multa de R$30 mil e jogar sem cinco mandos de campo, apenas. Nem a depredação do carro de Márcio, ocorrida no estacionamento privativo do clube mandante terá punição, já que o TJD não previu ressarcimento sobre os prejuízos. Sendo assim, conclui-se que nesta piada que tem sido os julgamentos da Justiça Desportiva Brasileira, a vítima é quem deve arcar com tudo e “empurra-se com a barriga”, afinal de contas a Copa vem aí e “tudo será uma festa!” Para quê preocupar-se com racismo, nesta que é a maior nação negra fora da África, se na Copa só teremos “alegrias”, “tudo estará resolvido” e tudo “vai muito bem, obrigado!”

   Quando decidiu-se que o Brasil sediaria a Copa do Mundo de 2014, muitos se perguntaram se o Brasil estaria realmente preparado para tal evento. Tenho fé e acredito no meu país, mas após estes tristes atos de racismo e diante da ineficiência de nossa Justiça Desportiva e da malfadada CBF, meu questionamento é outro: será que o brasileiro (entenda-se: torcedores e cartolas) está realmente preparado para receber tamanho evento?

E nos resta assim, apenas a perene esperança de dias melhores no futebol brasileiro como um todo.

 

Por: Clecio Emanuel (arena-de-ideias.webnode.com)