DAS EMPATIAS DE UM OLHAR ENVIESADO

Prof. Valdemar Neto Terceiro, poeta.

 

Essa crônica começou a ser escrita numa quinta-feira quase sem fim.

Fora de casa, esse cronista, limitado a mesa do ofício magistério, tenta, em poucas e pobres linhas, retomar aquele antigo espaço entre a noite e o dia seguinte do pós-meia-noite com algures de sapiência para os transeuntes notáveis de gládios platônicos da grande rede.

Rede de índio não seria tão grande assim.

Pois bem, estou por aqui ainda. Água de um lado, pincel do outro... Espero alguns alunos irromperem a porta com sonoros “boa-noite-professor”, naqueles sorrisos cansados, mas honestos; sorriso de quem veio de longe ou de perto pra estudar. A sala é quente e sinto que suo, o vento que bate dá um beijo de alívio que transcende qualquer ideia de brisa que poderia me ocorrer agora. Vontade de dormir, o olho pesa por trás dos vidros cheios de grau.

Cada gole remonta um minuto. E em cada momento, este texto ganha uma linha. Revejo o que vi, releio as entrelinhas e, no final, ainda tento descobrir o que andei escrevendo. O mal da crônica é seguir o tempo que lhe resta, anda infante, destronando o mistério e impondo uma república de poesias tão jacobina quanto qualquer guilhotina.

Não olho pra frente e ouço apenas o burburinho. Não sei o que dizem, mas dizem... Penso em muita coisa que não está aqui, banhado de um desejo de que estivesse. Tanto faz: o caminho da ausência é margeado pelas flores da lembrança. Contudo, me lembro de que o ofício magistério exige que o que há dentro não se evidencie fora, por isso (acredito eu), resolvi me tornar escritor. Poeta? Sim, como qualquer borboleta, abelha ou flores do campo, capim alto, tudo que baila no silêncio da manhã de brisa ou na noite de sussurro de aracatis.

Não sei dizer se as teclas estão, realmente, sabendo traduzir o que os dedos-artéria-coração há muito ecoam da alma. Talvez um desejo insano de conhecer o mundo, talvez uma vontade enraizada na terra; possibilidades que brindam na noite solitária-cheia-de-gente desse professor letrado. Caminho torpe, eu sei, sentido que o gole d’água não é mais plausível a minha evidente tentação pelo desconhecido. Entrego-me vacilante às correntezas de um rio sem nome e sem rumo que, vez por outra, encontra barragem com o passado, mas que não mede cúbicos de águas para destruí-la e vislumbrar o futuro. Tenho medo, eu sei que talvez me afogue, talvez me conheça peixe, nunca se sabe.

No mais, existem olhares estranhos nos cantos das pálpebras, meticulosos, querendo saber o que escrevo e o que destoou. Já me evidencio demais, acredito eu. Eles sabem, pois o caminho é deles, um caminho único cheio de perguntas num céu de veraneio. Aí, me conformo: talvez seja isso que quer dizer, no fundo, compreender, a partir desses empáticos olhos sobre mim.