O EVANGELHO UNDERGROUND Valdemar Neto Terceiro, poeta;

O EVANGELHO UNDERGROUND

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Escrevo antes de o sol nascer. É aquele primeiro exercício matutino, depois de quinze minutos na ergométrica. Meus joelhos reclamam, mas no decorrer do dia, acabam agradecendo por tamanho sacrifício pós-sono: só assim o dia passa menos dolorido e mais enérgico! Escrevo sob o silêncio do ante-amanhecer, quando há uma sinfonia de pássaros por aí, ainda não silenciados pelos gritos e motores dos automóveis desrespeitosos por natureza. É bom assim, o pensamento flui sem obstáculos que o desmembre – ele chega uno e inteiro até os teus olhos, leitor.

Escrevo antes de o verbo querer se colocar em norma. Se a literatura seguisse regra, quem sabe se eu estaria aqui, né? Seria uma tirania das academias! Todos aqueles papas parnasianos escrevendo sob suas barbas brancas, cheias de pó das eras, as mesmas odes sobre cidades enterradas abaixo de outras cidades, renegando o verso jovem como quem enxota um mendigo das razões. Herméticas academias que acabam afastando a arte do povo e não reconhecem o sangue novo que brota longe de suas dependências caducas e o problema da elite artística vigora em nome de uma poesia cega feita, não pela arte, mas pelo stratu que querem alcançar... Dificilmente a poesia seria livre se concebida num antro do elitismo ao invés de ser uma arte revestida dos retalhos do meio da praça. O verbo, antes da regra, sempre fora o princípio de tudo... A norma veio do homem, coisa menor diante do verbo.

Escrevo na solidão necessária de todo escritor. Coloco-me diante de todos os meus pensamentos, aqueles que nunca viram o sol transpor um dia. Os mesmos pensamentos que comungam com os mitos de tempos anteriores, os mesmo tempos que os olhos de duas décadas e meia do seu escritor nunca viram, mas apenas sonharam, como uma lembrança do tempo além. Os sussurros dos outros tempos exigem novos versos, estes esbravejam em esperança e nunca poderiam cessar... Lembram que a poesia nasce da juventude, esta que prepara a ceia do futuro numa seara de fogo – bebendo os vinhos do esgoto e sendo reprimida nos alicerces underground que a poesia elitista insiste em construir. Esses tempos não querem ser esquecidos e renegados às meras recordações imediatistas de hipócritas academias que beijam os pés do poder político ao invés de render libações a verdadeira arte do ser, aquela livre e que revoa sem o se prender em verso... E só o tino do verdadeiro poeta consegue captar.

Escrevemos na surdez dos passos e nos risos de doidice. E nenhum poeta deveria se calar diante da imortalidade da ignorância, mas se vangloriar, pois eis um ser que sempre estará acima dela: o vate em verso puro, o eterno e mítico poeta, amigo das constelações e confessor dos mitos. Nunca as entrelinhas da idiotice o transpassarão o peito, pois lá não há sangue e sim poesia. O orvalho é hidromel e a flor é a ambrosia. A morte é só a passagem do ser para o verbo – o princípio de tudo. Mas há de a sociedade sem instrução ridicularizar estas linhas últimas... Tanto faz! A poesia ainda é viva.

Escrevo do submundo, quem tem vistas, veja! Poesia assim sempre incomoda!