ALFAIATARIA SOCIAL

Prof. Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Antes de tudo, todo o bom leitor deve se ater às entrelinhas. Não importa que tipo leitor seja esse indivíduo. Parte-se do pressuposto que tudo é passível de leitura, no mais, os verbos não seriam, tão somente, símbolos legíveis facilmente em superfícies ou suportes variáveis. Repito: todo bom leitor deve se ater às entrelinhas.

A problemática se desenrola quando as retinas não se atêm ao que está por trás das linhas, talvez alguém dê nome à isto: crítica. E o problema cresce proporcionalmente ao número de habitantes – e exponencialmente multiplicado por causa dos anúncios de TV. O leitor que não se apega ao desenrolo burrométrico aqui ganha o nome de intérprete social: um indivíduo capaz de discernir e debater o seu redor – um leitor especial que vê as entrelinhas. Um alfaiate social.

Mas o caso é que a sociedade está fadada ao comodismo por causa dessa facilidade de ser encoleirada. A ameaça do controle é relativa ao impossível e tudo corre bem enquanto há sorrisos na telinha. Infelizmente, o comodismo intelectual destrói a aptidão própria do ser para criticar ou interpretar o seu redor. O argumento se torna tangível ao fracasso e as conversas vão se tornando cada vez mais estúpidas. É o costume de dar algo às mãos: dar o peixe no lugar de ensinar a pescar.

A cultura tupiniquim de se abster de qualquer debate social acaba se tornando uma praxe midiática: temos poucos canais – digo “canais”, mas me refiro aos meios comunicativos – que interagem com o indivíduo de maneira a enriquecer o próprio intelecto. Em sua maioria, a mídia trata de temas banais que, de certa forma, atraem a atenção imediata e não necessitam de uma atenção completa e lógica. Programas que nos deixam à vontade para não raciocinar (e é, de fato, o que a maioria quer). Pão e circo para esse admirável gado televisivo.

Mas uma sociedade assim não teria salvação? Só se salva quem quiser... Nesse caso, a seleção natural do raciocínio não perdoa as pessoas que se acomodam propositalmente e a tendência é afundar-se na própria lama caótica criada do exercício de não pensar. Restam, então, aqueles que se preparam para enfrentar qualquer situação pelo simples fato de andarem num wild side inerente aos passos de cada ser humano, mas onde muitos desistem, alguns destes corajosos se submetem às pressões consequentes do imediatismo automático da sociedade.

No tecido da sociedade, esses alfaiates críticos cosem e desfazem os retalhos, pontos e linhas dados. A compreensão dessa roupa social vai acabar denotando que moda estamos seguindo, num lugar onde muitos não fazem ideia do que estão vestindo socialmente. Cabe, então, aos infelizes alfaiates de menor número a dura labuta de reger e romper costuras inválidas, tendo como resultado hipotético a apresentação de uma sociedade nua e destoada do que se parecia ser.

É uma alfaiataria livre de passagem, os desejos que querem participar é só abrir olhos e sair dessa ciranda estampada de quereres dos outros. É só isso...