ANARQUISMOS PELO BEM DA HUMANIDADE Valdemar Neto Terceiro, poeta;

Durante as últimas noites, andei escrevendo linhas distantes de uma ordem implícita. Sinceramente, as acho um tanto quanto desorganizadas pelo andar dos dias. Viajei demais dentro da minha cabeça, expondo minúcias abastadas de como é um pensar que pensa por si mesmo (é por aí, uma ideia de arenas).

E ainda fico nessa: escrever crônicas é demasiado inconstante para meus dedos. O nome do gênero já me assusta devido a sua intenção cronológica. Sei não, ligar os fatos do dia nestas linhas livres de qualquer regra pré-fabricada num engenhoso embrião utópico acadêmico é ser irreal demais. Prefiro seguir o caminho do bem – do bem entender como eu faço minhas coisas. As crônicas que escrevo, os poemas que ele recita ou os contos de todos vós não precisam estar mergulhados no bálsamo caótico do day by day de nossas vidas, acho enfadonho o trato metodológico dado aos textos literários, eles bem que poderiam olhar mais a paisagem ao invés do texto do vizinho. E a gente se torna menor e fica pensando: “quem dera se eu realmente fosse escritor”, pelo menos tento – de verdade e a sério!

Só que a liberdade de escrever, para um reles autor de segunda como eu, parece mais aberta aos anarquismos de escrita do que a uma predileção ao que se sucede como arte – a tentativa de ser politizado dentro de um esquema. As veias anarquistas de um modo de escrita remontam a ideia de que, sendo assim, tem-se o belo direito de falar o que bem entender, contudo, tal direito se resguarda na verdadeira intenção de se dizer algo que complemente e faça sentido – de vazios, o céu noturno já anda cheio!

Do nada, me chega Cazuza na mente: “na poesia que a gente não vive, transformar o tédio em melodia”. Que tédio! Linhas mais alegres, por favor! É demais querer mudar o tom das coisas à força e à pressão? De repente, tudo ganha um sentido maior, mais brando e confortável, ver o usual se tornar uma coisa bela. De fato, me reencontrei nessa crônica, ‘tá aí uma coisa que eu não havia notado! Vai o cronista acreditando, enfim, que nosso anarquismo romântico e fatídico seja a solução para que as coisas não caiam no limbo do comum.

Tenho uma mania chata de, toda manhã, ligar o rádio e ouvir música (num quarto cheio de discos, livros e filmes... Isso pode soar estranho no mainstream do século XXI). Às vezes, quebrar a ordem vigente nos faz enxergar mais longe. ‘Tá certo, o papo revoltadinho das coisas fora-eixo de novo? Se não for, o que será? Mas é realmente na escolha de não querer escolha alguma que os olhos abrem. Abrir-se a possibilidade de não querer tocar em determinado assunto é achar um locus amoenus dentro da vastidão sem fim dos dias crônicos. E é daí que parte nosso anarquismo: é do não ser isso ou aquilo. Todo escritor deveria fugir de si mesmo quando os rótulos começarem a estampar o “peito em fibra” de suas obras, só pra não dar gostinho ao querer ser e ao por vir básico do mundo comercial.

Reverto a situação e, em últimas linhas, tento não querer dar uma de correto... Não gosto de ordenar a arte, nem mesmo em linhas calculadas. Gosto do escrever feito o respirar. Leve e sucinto e é o bastante pra te deixar vivo. Por hoje fica isso mesmo.