Aula

“AULA”

 

Por Valdemar Neto Terceiro, poeta.

 

 

Considerar a literatura como uma arte exata será sempre um erro gravíssimo, diante daquela velha forma e, talvez, “imobilidade” de sua altivez. O seu patamar está além das mãos ignorantes.

Mas isso é pra ser uma crônica, certo? Talvez... Nomeei-a “aula” pela simples e hilária razão de esta ser uma “aula” gratuita sobre um pouco de teoria literária – para uma terra sem literatura, só em poucos lapsos guardados secretamente em gavetas, bons o suficiente para não se misturarem aos léus e véus sujos daqui. Aqui vai a primeira lição: tudo que há de um estudo em literatura não passa de mais uma página de todo um universo já falado. Pareceu grande? Espera que aumenta...

Estudar literatura seria, de todo o viés possível, enquadrar todas as áreas de conhecimento humano. Literatura não é uma ciência exata, repito! Tendo a arte literária como a mãe de todas as disciplinas – e não a filosofia, esta só existe em função daquela – desde o início se tentou delimitá-la, reconstruí-la, analisá-la, amiudá-la! Até virar objeto de microscópio e ser vista como besta emergente do caos. O velho de Estagira já a viu como um “fazer” da arte que tem uma função mimética (imitativa) das ações humanas, nessa época nem o “jargão” literatura era usado e sim “poiésis” (que, então, derivou a “poética” ou “arte poética”). Tudo que tinha uma função ficcional e constitutiva de subjetividade ou mimésis era “poética”. De lá, pelos séculos e séculos, a arte poética se tornou de “dica” à regra constante da arte (arte? Regra? Regra da arte? Perdoe-me Bourdieu, mas nunca vi...). Até que o mundo começou a virar a esquina nos c’est fini século XVIII – em meio aos chás na água, bastilhas e cabeças-reais rolando na grama – e a teoria básica e, até ali, inexorável do velho Aris, promulgada e esbravejada pelo Horatio, começou a ser vista como a literatura: não mais foi vista como um instrumento meramente superficial, mas suscetível a análise mais aprofundada. A Literatura passou a existir, a arte das letras, littera, em todas as formas concebidas.

Pode-se, portanto, enquadrar os românticos como os belicosos que destituíram a regra da essência da arte. Nada contra Aristóteles, ele deve ser visto como fundamental para a literatura já que fora o primeiro a poder “teorizá-la” (e dá pra teorizar as entrelinhas da alma?).

A literatura nada mais é do que a uma criação humana baseada em outra criação: a linguagem. Esta, uma óbvia retina para a concepção de comunicação, é tão aberta as variações humanas que a sua irmã mais nova, a literatura, é que sofre esse pathos lingüístico. Se dali, ali de cima, lá pelos inícios dessa crônica, nós notamos como a literatura andou até aqui, saibamos que a linguagem foi a principal forma de manifestação que deu abertura para as teorias posteriores. Língua e literatura são tão assim... Difíceis de separar dentro de uma análise, ambas nascidas da alma do poeta e, enquanto existir uma, a outra existirá.

Está aula não se encerrará aqui, ainda há muito que falar por frente sobre literatura. Juro que vou me limitar ao que seja literatura cearense – teoria e fórmula severamente aplicadas... Até lá, não tentem estudar literatura pelo que a tia passou no quadro – ou slide, dependendo de onde estudam – estudar a prática na leitura é mais bacana do que o repeteco pedagógico que insistem em repassar. Que assim seja...