DESCONSTRUÇÃO S/A Valdemar Neto Terceiro, poeta;

DESCONSTRUÇÃO S/A

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Viemos do caos. Duvida? Pergunta ao grego mitológico aí do lado. E todo caos precede uma ordem. Ainda? Pra se chegar ao arco-íris, um mundo concebido na pureza da água foi preciso. Não há, de fato, como evitar uma desconstrução que vem para o bem, para modificar a velha ordem através da tribulação endógena de cada sociedade.

Mas, não seria isso a Reconstrução? Não seria, pois reconstruir seria partir de um pressuposto existente. É que nem revolucionar, você evolui novamente de um ponto pré-existente e, não há quem garanta que os mesmos erros também não evoluirão. Se cada passo fosse baseado numa “reconstrução”, os passos seguintes, longe destes que logo atrás deixaram pegadas, estariam visíveis e feitos por pés anteriores e o caminho existente precede uma total consciência do se quer fazer depois. Mas nem todos têm cabeça boa e reconstruir cairia num limbo da utopia visto que a voz da maioria é enorme, mas desqualificada aos olhos daqueles lá de cima que fingem viver numa democracia – mas é outra história, outra e-stória! Já não poderia reconstruir o que já está condenado – desconstruir já seria o propósito para dar asas a estas que chamam utopias.

Mas, falando na língua do simples, o que significaria a desconstrução?  Inicialmente partiria de baixo e não das já “associações” fora do underground que, de fato, desconhecem o que é ser velado ao subterrâneo. Na arte, a desconstrução faz esse caminho com duas flores na mão: com “marginalia” à direita – não no sentido pejorativo empregado pra definir pessoas que cometem atos ilícitos, mas alguém à margem das coisas, nesse caso, a arte. Os papas parnasianos (e é assim que defino a caduquice que se diz artista) tendem a ser os grandes senhores da razão, sendo faróis para os outros artistas, contudo, mal sabem a maioria que esses faróis não levam a portos, mas a barreira de recifes e naufragam as chances de ganharem um brilho. Esta é uma parte da velha ordem que não vale a pena reconstruir e, socialmente, ser pedra é melhor que vidraça. Marginalia, livre por natureza, adéqua a arte ou qualquer ordem social de maneira muito interpretativa, não é baseada numa visão leiga, muito pelo contrário, reconhece-se a teoria e a modela num pressuposto de experiência, ou seja, em si, a marginalia tem uma coragem que outros fingem ter. À esquerda, tem-se a flor do coletivo. O desejo de destruir a velha ordem e impor uma nova que, em contrapartida, traz uma liberdade não antes vista, deve ser inerente ao ser e em todo ser, visto que só através dos olhos clínicos de uma sociedade crítica é que será possível estruturar uma nova concepção. Na arte, os exemplos do início do século XX ensinam como a negação faz parte de qualquer começo, mas, em si, todo ser tem o desejo da desconstrução e quando a aceitarmos como algo que vem para transformar, as portas estarão abertas aos versos brancos. Os papas parnasianos – que só têm nomes e títulos – sucumbirão ao poder do anonimato independente que traz a arte livre e verdadeira, não feita pela comodidade, mas pela necessidade de arte que transcende o artista e caminha na pele do mundo. No fim, desconstruir é o que há de necessário para submeter velhas formas às “utopias” que antes era chacotas banhadas às festas da high society . Logo, a desconstrução é levar um caos que sempre precede a ordem, mesmo que seja assustador, mas necessário e, claro,  quem realmente encontra-se no high terá medo de cair, quanto mais alto...

Enfim, seria desnecessário comparar a desconstrução com o que há por aí (gente na rua, conspirações, luta contra o abuso de poder e a busca pela verdadeira democracia), como já disse, todo começo sofre uma negação – pois tudo que é novo assusta – mas o tempo dirá o quanto a desconstrução será útil para estimular uma nova ordem entre os seres. Não terá bandeira nem nome... Cada novo tijolo posto no anonimato, pois sem nomes e sem rostos, somos todos.