DIÁRIO DO BUDISTA McDONALD

DIÁRIO DO BUDISTA McDONALD

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Ser vegetariano é uma graça. A gente chega num lugar que só vende aquelas pobres vacas mortas, mas hormonalmente vivas e pergunta se tem algo que seja vegetariano, alguém com um sorriso lindo, de dentes brancos nos diz, com uma voz tão suave quanto a de um anjo, de modo atencioso, mas sem se tocar, claro: “temos peito de frango, pode ser?”. Opa! Mas frango ainda é carne... Ahhhh! Alguém ainda acha que galinha dá em árvore? Nada... A simples confusão de não ter entendido direito, a raridade vegetariana que existe acaba comprometendo os pedidos usuais.

Nada contra, tudo a favor. É interessante ouvir coisas assim pra nos desligar do mundo adentro e nos botar no mundo afora de novo, como se não bastasse os sinais de trânsito, os gritos da pamonha e aquela vontade de ler algo sem que os barulhos arruaceiros não nos tirassem os olhos das entrelinhas. É bom ouvir, é bom sentir essas coisas. Não aceito o peito de frango e aceito um belo suco de tangerina, olho o trânsito, olho as passarelas recém-denominadas de calçadas. O que se passa ali, naquelas mentes? Sei lá, o suco acabou... Ih! Hora de levantar velas, o chuvisco fino não assusta ninguém, não poderia me assustar também. Cada passo na rua, introspectivamente, se torna um verso pra mim. Poeta isso! Poeta aquilo! É: ser poeta também tem sua graça. Às vezes olho a pilha de teóricos sobre minha mesa e me pergunto, num âmago doce e infantil: “o que esses caras querem dizer mesmo?”. Empurram frango para um budista! Sei lá, acho que ser poeta é mais do que isso. É não ser egoísta ao ponto de dizer que sabe de tudo – no geral, o poeta tenta saber de tudo, a graça está em nunca achar um fim e, de repente, cada nova ponte retrata um começo novo em folha! Desistir? Pra quê mesmo? Se a coisa ficou boa agora... Os passos ganham uma calçada maior ainda do que o normal; o chuvisco piora (doce ironia cearense que, quando a chuva melhorou – em quantidade – quer dizer que piorou...). Segue a linha!

Tem o lance das lembranças: se por acaso poesia querer uma técnica, algum dia, teorizar-se-á que a memória é a melhor forma de escrever. Meu irmão de fé, Léo Mackellene diz que “memória é o que em-mim-mora!” ‘Tá valendo pra poesia, por certo, ando por um calçadão desprovido de árvores, pensando em tudo que já se foi por aqui, tornando-se verso para além do meu alcance, ressuscitando esporadicamente nas entrelinhas. Imagino assim: toda uma vida entre dois ou três versos. Ilusão essa minha. Sempre gostei daquela livraria ali, vou entrar... Segue a linha! Aqui tem café e me sento no chão com um Drummond ao colo: “sempre tarde antes de ser tarde”, ih! Acontece...  Só agora me toco do que já deu pra se viver em toscas linhas desse McBudista feliz. Não compro nenhum título e rumo para casa. Buzinas, xingamentos, sirenes... É tudo uma doce confusão que só me diz uma coisa: está tudo certo, é aquele “caos” que faz sentido e, ironicamente, torna-se nosso “cosmo”. É um tudo não-maravilhoso, ninguém confirma nada e todos são contra alguma coisa. Daí, toda poesia, vejo por esse prisma, surge de um nada impossível, naturalmente... Como um chuvisco after-noon querendo a atenção das pessoas de risos molhados. Num riso matuto, confirmo: um passo que se torna verso é um passo para a eternidade. Ver-se poesia, em si, é criar-se para além do corpo – poesia vive além da carne. Coisa que teórico não diz e eu, vegetariano por distração, ainda sentindo uma saudade lusa (forte fado!), é quem busca a eternidade em cada passo intenso.

Enfim, chuvisco. Não obstante, a névoa encobre o campanário. A esquina é o fim, quem sabe, do caminhar e um Caeiro urbano se despede num diário sem-pé-nem-cabeça. Desde já, tchau!