Festa de abertura Paraolimpíadas 2016, pede mundo mais acessível!

Diante de tantas histórias improváveis, a fala costuma ganhar ares de um discurso de superação. Mas é preciso ver além. Nesta quarta-feira, uma imensa festa quis quebrar barreiras. Em uma celebração às diferenças, os Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro tiveram início sob um único lema: o coração não conhece limites. Ao passar a ideia de que, mesmo diferentes, somos iguais, a cerimônia de abertura encheu o Maracanã de beleza, poesia e com o ideal de que deficiência não se traduz em inferioridade. A honra de representar um país ainda longe de ser inclusivo coube a Clodoaldo Silva. Ao mudar a imagem do movimento paralímpico do Brasil com uma carreira de conquistas, o nadador se tornou gigante. Nesta noite, ao acender a pira dos Jogos, carregou a mensagem de urgência em busca da inclusão.

A noite também teve a alegria de Shirlene Coelho. Ouro em Londres 2012 e prata em Pequim 2008 no lançamento de dardo, a atleta gingou pelo Maracanã com a bandeira do país e foi a responsável por guiar a delegação brasileira pelo estádio. Outra marca da festa foi a mensagem da ex-atleta Márcia Malsar, que caiu com a tocha e se reergueu sob muitos aplausos do público.

Philip Carven, presidente do Comitê Paralímpico Internacional, foi o protagonista do vídeo de abertura, lembrando o início do esporte paralímpico até a chegada ao Rio de Janeiro. Uma contagem regressiva com números gigantes apresentou problemas antes do início oficial da festa, aberta com um salto radical do cadeirante Aaron Wheelz, em uma imensa rampa montada no estádio. Uma roda de samba formada por ícones como Monarco, Pretinho da Serrinha, Diogo Nogueira e Maria Rita, cercada por sambistas cadeirantes, empolgou o público logo de cara.

“Olha o mate, olha o mate”. No discurso dos vendedores, o ritmo intenso do funk carioca, transformando o Maracanã em um imenso baile. O estádio ganhou um por do sol ao estilo do Arpoador para que a bandeira brasileira passasse pelas mãos de Roseane Miccolis, filha de Aldo Miccolis, pioneiro do esporte paralímpico no Brasil. Foi a deixa para que o maestro João Carlos Martins fizesse uma bela performance do Hino Nacional ao piano, enquanto dançarinos formassem a bandeira brasileira no gramado.

Era a senha para a entrada das delegações. O palco da festa foi tomado pelos astros do espetáculo. Começou com o time de atletas independentes, seguido por uma a uma das equipes. Estrelas como Markus Rhem, do salto em distância e porta-bandeira da Alemanha, e o italiano Alex Zanardi, ex-piloto de Fórmula 1 e que vai disputar o ciclismo de estrada, desfilaram pelo Maracanã. Cada um dos países carregava uma peça de um enorme quebra-cabeça, formado por fotos de todos os atletas da competição. Todos muito aplaudidos pelo público.

Foram fotos, selfies, declarações para família e amigos. Era um recado de amor de dentro do Maracanã para o mundo. Países como Alemanha e Grécia também carregavam bandeiras do Brasil, como um gesto de carinho à sede dos Jogos. Colombianos fizeram coreografia, enquanto um atleta de Bielorrússia carregou a bandeira da Rússia, excluída dos Jogos devido ao escândalo de doping.

Depois de cerca de 1h50, um dos momentos mais esperados. Ao som de “O Homem Falou”, de Gonzaguinha, a delegação brasileira apareceu para o público e fez o estádio explodir em gritos e aplausos. Ouro em Londres 2012 e prata em Pequim 2008 no lançamento de dardo, Shirlene Coelho gingou pelo Maracanã com a bandeira do país. Um dos responsáveis pela concepção da cerimônia, o artista Vik Muniz recebeu a última peça do quebra-cabeça das mãos de Fernanda Lima e completou a projeção de um enorme coração que pulsava sangue para todos os países.

Carlos Arthur Nuzman, presidente do Comitê Rio 2016, então, falou sobre inclusão e diferenças, sob o lema de todos terem um coração. “Brasileiros não desistem nunca”, disse o dirigente. Ao agradecer o apoio de todas as esferas do Governo, viu o Maracanã se dividir entre vaias e aplausos, interrompendo seu discurso com uma longa pausa.

Por outro lado, Sir Philip Craven, presidente do Comitê Paralímpico Internacional, foi aplaudido ao abrir seu discurso e dar boas-vindas ao "Maraca". Também foi ovacionado ao falar da capacidade dos atletas de fazer o mundo mais igualitário e ao citar esportistas refugiados. Ao passar a palavra para Michel Temer, que abriu oficialmente os Jogos, viu o Maracanã estourar em vaias contra o presidente. O protesto, porém, foi abafado pelos fogos de artifício e pela música alta.

Foi a deixa para um dos mais belos momentos da noite. Crianças com deficiência, acompanhadas por seus pais, carregaram a bandeira paralímpica. Depois, os juramentos. Nadador paralímpico, Phelipe Rodrigues falou em nome de todos os atletas que participam dos Jogos, enquanto Raquel Daffre representou os árbitros e Amaury Veríssimo, os técnicos. Uma das estrelas da noite, Amy Purdy, medalha de bronze no snowboard nos Jogos de Inverno de Sochi 2014 e participante do programa "Dança dos Famosos" nos Estados Unidos, fez uma exibição de dança. Sob chuva, brilhou ao misturar música clássica e samba para falar da relação do homem com a máquina.

Pelas mãos de Antônio Delfino, a chama paralímpica chegou ao Maracanã sob chuva. Dono de três medalhas em Jogos (ouro nos 200m e nos 400m rasos em Atenas 2004 e prata nos 400m Sydney 2000), ele passou a tocha para as mãos de Márcia Malsar, ex-atleta com paralisia cerebral. Ela se desequilibrou e caiu com a tocha. Amparada, levantou e foi muito aplaudida pela torcida. Depois, passou a chama para Ádria Santos, que a entregou para Clodoaldo Silva.

O Tubarão, como é conhecido, parou diante da escada e reclamou, como em um alerta para os obstáculos das cidades para pessoas com deficiência. A escada se moveu, transformou-se em rampa, e o nadador acendeu a pira olímpica sob muita chuva, para o delírio do público no Maracanã. 

Seu Jorge, então, assumiu o protagonismo e cantou os clássicos "Eu acredito na rapaziada", de Gonzaguinha, e "É preciso saber viver", de Roberto e Erasmo Carlos, para encerrar a cerimônia.