INUTILIDADE PÚBLICA Valdemar Neto Terceiro, poeta;

INUTILIDADE PÚBLICA

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

O sono é o afeto mal correspondido do escritor. Juramos fidelidade, mas ele só surge quando menos precisamos. O vinho é convidativo, porém ele insiste em não beber: mantém-se sóbrio para testemunhar nossas besteiras ou devaneios. Ainda tem o frio da madruga que nos corta em inúmeros pedaços, cada qual esquecido entre o copo de café e o cobertor que de nada vale depois de certo tempo... E o tempo vai indo no rosto das horas, quando se dá conta, o “tarde demais” já era e o que resta é o galo matutino dizendo que você, novamente, passou da hora. Francamente, é um saco.

Às vezes essa vontade de escrever vem daquilo que menos esperamos, quem sabe, na madruga desperta a vontade do espírito que não dorme ou aquele famoso sono desertor – bendito seja entre bocejos e lágrimas rolando por uma face mal dormida...

Aí, o que resta escrever? Não sei... Tem aquelas nuanças sociais que verberam por quatro cantos que todo cronista, como um servo fiel do seu tempo, deve saber! Mas, sinceramente, compartilho a opinião do Russo que “o mundo anda tão complicado”... Valeria a pena escrever tortas linhas sobre as coisas do mundo? Não sou muito chegado, há tanta gente por aí e eu gosto do lado bonito dessa coisa chamada mundo – a sua arte, a prova cabal que “yes, temos alma!” e não somos um mero vaso de barro temperado à carbono e outros afins cósmicos sem sentido. Aí, eu descanso os dedos do teclado e passo a sentir essa brisa gélida que me rodeia, elétrica e potente... Ubíqua por toda uma cidade sonolenta uma hora dessas. Quem a sente além de mim? Deve haver inúmeros migrantes da madrugada que também a conheçam e só Deus sabe como eles a devem conhecer! Descrever o invisível pra mim, dessa maneira, é mágico, pois me torno um transeunte em pensares que estão além destas teclas. Repito, esse sono é um afeto mal correspondido, devo segui-lo? Na boa: deveríamos todos, os que escrevem e leem o mundo (de modo verdadeiro!). Sim, escritores, leitores de uma vigília eterna entre outros lugares que a poesia e prosa nos arrebatam antes de mergulhar nos mistérios do inconsciente. O mistério do sonho reside nos cantos esquecidos dos nossos lugares secretos, eis um ensinamento (assim espero!).

Acredito que a arte de ser um escritor mora nesse canto chamado solidão ante o sono! Quando não se ouve nada além do que se quer ouvir (lembrando, nessa crônica a trilha sonora é Dylan, sabe quem é? Pois é...). Mas, por hora a noite ainda continua seu intrépido caminho pelo vácuo das ruas. Uma lua – e não sei se há hoje por ali – deve estar de vigia de deuses e de homens, mas esse cronista se vê aquartelado sob o teto de barro cozido, longe de suas retinas trêmulas. E por aí vai, as linhas tortas já começam a surgir e, sinceramente, não espero nada além de uma boa dose de vinho para encerrar o que não se termina. A crônica continua, afora pelos quatros cantos da noite e o sono já aceitou minha feliz oferta de vinho.

O último parágrafo parece ser sempre o mais disperso de todos, contudo, aqui fecho as linhas com Pessoa e “à parte disso, tenho todos os sonhos do mundo”, vou vê-los, espero ser os teus também.