No país do carnaval

Sérgio Augusto - O Estado de S.Paulo

Por que o nosso carnaval nunca empolgou poetas e escritores estrangeiros a ponto de atrai-los ao Rio durante o reinado de Momo, como sempre fez com estrelas de cinema? Respondi ao intelectual folião que me fizera a pergunta com um provável truísmo: carnaval não é para qualquer gringo, muito menos para aqueles por dever de ofício acostumados a viver mais na solidão e, de preferência, sob o mais casto silêncio. Carnaval é, das festas profanas, a mais gregária e a mais barulhenta. Verdade que Vinicius de Moraes teve o estalo de Orfeu da Conceição estimulado pelo batuque de um morro vizinho, mas foi exceção. De mais a mais, sua ópera negra tinha como pano de fundo uma favela e os preparativos de uma escola de samba, era uma ópera carnavalesca, porém trágica: um carnaval sem alegria, como o dos pierrôs e arlequins de Manuel Bandeira e o de Anibal Machado e sua assassinada porta-estandarte. Como, em geral, é triste e mórbido o nosso carnaval literário!

A indiferença dos poetas e escritores de fora pela nossa folia nada tem a ver com as mortes de Eurídice e Rosinha ou as melancólicas mascaradas de Bandeira. É temor pessoal puro e simples. "Só de pensar me dá medo." Assim reagiu John Updike à sugestão do editor Luís Schwarcz para que aproveitasse sua primeira viagem ao Brasil para conhecer o nosso carnaval, o de 1992; sem entrar em detalhes. Manifestou interesse em conhecer a Amazônia, mas o curto tempo da viagem não permitia uma esticada até lá. Pediu para ir a Brasília; se foi atendido, não me lembro.

Simpático, calmo, bem-humorado, Updike fazia o tipo reservado, educadamente curioso, bem waspish. Veio para lançar os quatro romances protagonizados por Rabbit Angstrom, pela Cia. das Letras. Duas vezes nos encontramos no Rio, para um passeio de carro pelos pontos turísticos da cidade e num jantar com escritores brasileiros (lembro-me de Antonio Callado e João Ubaldo Ribeiro), oferecido por Fernando Moreira Salles num apartamento no Morro da Viúva. Embora o sol fosse um santo remédio para sua crônica psoríase, dispensou praia e passeios de barco pela baía.

Sonhava com uma viagem ao Brasil desde que assistira, ainda garoto, ao desenho Alô, Amigos, aquele travelogue panamericano de Walt Disney que revelou ao mundo Zé Carioca, Tico-Tico no Fubá e Aquarela do Brasil. Ao sul do Rio Grande conhecia apenas a Venezuela, que visitara na década anterior, exclusivamente para ver de perto uma tribo ianomâmi, encontro de que deu conta em Consciência à Flor da Pele.

Para não chegar aqui boiando, com a cabeça cheia de estereótipos, leu o que pôde disponível em inglês. Já conhecia e admirava Machado de Assis, apreciara The Long Haul (que foi como traduziram na América Jorge, Um Brasileiro, de Oswaldo França Jr., resenhado por Updike na New Yorker), sabia tudo da passagem de Elizabeth Bishop por estas paragens. Vexame não deu.

Que eu tenha visto ou ouvido falar, bebeu com surpreendente moderação. Surpreendente porque a quase totalidade das estrelas literárias de língua inglesa é da turma do funil. William Faulkner, por exemplo, se amarrava tanto numa birita que, se tivesse vindo ao Brasil cinco meses antes, ou seja, durante o carnaval de 1954, teria se encantado com a premiada marchinha Saca-Rolha, cuja estrofe de abertura era uma exaltação à bebedeira: "As águas vão rolar/garrafa cheia eu não quero ver sobrar/Eu passo a mão no saca, saca, saca-rolha/ E bebo até me afogar".

Reza a lenda que Faulkner estava tão de porre ao chegar a São Paulo, que, na manhã seguinte, ao abrir a janela do hotel, resmungou: "Que diabos vim fazer em Chicago?".

Também bom de copo, mas quase um abstêmio se comparado a Faulkner, o britânico Graham Greene não saiu da linha em nenhuma das festas a que foi levado quando veio a um congresso do Pen Club no Rio, em 1960. A exemplo de Updike, também queria visitar Brasília, o que fez na companhia do crítico britânico Allan Pryce-Jones, que até um ano antes editara o suplemento literário do Times de Londres.

No Rio hospedou-se no tradicional hotel Serrador, na Cinelândia, centro da cidade, e teve em Antonio Callado um cicerone de luxo. Quando este, numa festa, o apresentou a Paulo Francis, perguntou: "Is he attached to you?" (Vocês são amigos?). Pego de surpresa, Callado explicou-lhe que, apesar do antagonismo natural entre crítico e autor, ele e Francis se davam muito bem. Tão bem quanto Greene e Pryce-Jones, poderia ter acrescentado.

Jean-Paul Sartre, outro visitante ilustre daquele ano, exigiu muito mais do diplomático traquejo de Callado. Por aqui, na companhia de Simone De Beauvoir, para lançar Furacão Sobre Cuba, editado pela nascente Editora do Autor, o filósofo desprezou a sugestão do escritor brasileiro para que não falasse só de política mas também de literatura e filosofia na histórica conferência que deu na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio. Entusiasmado com o furacão Fidel, Sartre só queria falar de política.

O clímax mundano da visita foi um picadinho na casa do jornalista José Guilherme Mendes, prestigiado por quase todos os intelectuais da praça. Otto Lara Resende roubou a cena com sua verve faiscante, escreveu Nelson Rodrigues. Sem largar seu copo de uísque, Sartre quase não abriu a boca e assim que sua companheira manifestou desejo de ir embora, ele, obediente como uma criança, pôs-se de pé, deu "bon soir" e caiu fora.

A visita de Greene não ganhou espaço em seus escritos autobiográficos. Tampouco Sartre, que eu saiba, escreveu uma linha a respeito da sua. Simone foi mais generosa e nos dedicou 64 páginas de Sob o Signo da História. O recorde nessa especialidade continua com seu patrício Blaise Cendrars, autor das 180 páginas de Etc..., Etc... (Um Livro 100% Brasileiro).

Cendrars tomou-se de amores pelo Brasil dos anos 20. Adotado pelos modernistas, chegou a propor ao governo brasileiro a realização de um filme sobre as maravilhas da nossa terra. Uma delas era o carnaval, "este jogo incontestado e livre do povo e de suas tradições pagãs", que, escoltado por Oswald de Andrade, conheceu ao vivo em março de 1924, semana e meia antes da publicação do Manifesto da Poesia Pau-Brasil, aquele em que o mandarim antropófago consagrou o carnaval do Rio como "o acontecimento religioso da raça", um acontecimento "bárbaro e nosso".