NO PASSO DE VIRGÍLIO

Prof. Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Distante da imagem que se tem de um ser com dedos ávidos nas teclas, o escritor, necessariamente, é aquele que é mais mundo do que folha. De certo modo, não é todo mundo que sente o que está por aí, pois a sensibilidade do mundo bate de frente com a dureza dos corações e o escritor só se manifesta quando o coração literário anda por fora das vastas inaptidões de se falar do mundo ao redor. Não cair na rede do comum é o primeiro passo.

Foi nesse pensamento que me enveredei pelo limbo entre o que há pelas calçadas e o inconcebível para além do pensamento. O lar do escritor é o litígio do real, de fato! Sem ele, como poderíamos ver o que há nas duas faces da moeda do tempo-espaço? O escritor toma para si o direito de ir além da visão pragmática em nome de uma vastidão de possibilidades que descontinuam no desenrolar da história. Inventivos seres diacrônicos que trazem no âmago de sua obra a inerência do tempo e das coisas da vida ao redor.

Ser escritor, então, não é fácil: se os textos saem forçosos e analíticos, ao ponto de parecerem totalmente artificializados, isso é o contraponto da originalidade da literatura. Irônico? Sim! Mas ser escritor não é se apegar às rédeas desse cavalo xucro e parnasiano e sim o contrário disso, é estar livre das formas ao mesmo tempo em que a experimentação abre caminho para que a estrutura poética se tornasse, cada vez mais, abrangente. Não estou anulando aquele seu velho soneto, mas acredito que dá pra ir, além disso.

O tempo é largo, imenso... De ponta a ponta é só o tempo que é senhor. A literatura abarca o início e o fim desse tempo como um barco que conhece cada palmo de mar além da dobra da terra. Não se pode limitar esse barco às velas livres, a sua forma é o mar quem faz e o escritor está aquém da ignorância. Desconhece-se o fim, especula-se o início.

E é o tempo rei quem fala da imortalidade do escritor. Esse mar não tem fim, ele some e reaparece, continua eterno na própria vastidão! Poucos singram com toda a destreza de marinheiros nascidos nos domínios de Netuno. Não são seres que apenas descolorem a medida da realidade como num sonho inebriante de poucas horas, mas gentes que nunca se tornaram totalmente humano, pois a sua existência não finda na morte e a imortalidade é o lar comum daqueles que estão nos títulos do mundo que um dia descobriram.

 

À Nilto Maciel, mestre.