O Historiador e o Romancista: Divergências e Diálogos.

Por: Victor Rodrigues de Almeida. 

No atual panorama das discussões metodológicas da produção do conhecimento histórico, tudo que o homem deixa como traços de sua presença, é fonte histórica sobre o qual o historiador costura a trama de uma época. Faz-se necessário ao historiador deshierarquizar as fontes no trabalho de produção do saber historiográfico e demostrar que todo pensamento arquitetado com hierarquias de conceitos rígidos tem pretensões de legitimar saberes em detrimentos de outros. Ler a literatura como fonte histórica é uma forma de navegar nas reflexões do mar Pós–Moderno da produção do saber nas sociedades ocidentais contemporâneas. Quais as narrativas que mais prendem a atenção dos homens através dos tempos: As reais ou as fictícias? Historiadores e romancistas narram histórias, ambos debruçamse na problemática da espinhosa e labiríntica condição humana. O historiador ao construir sua narrativa, busca referenciar com fontes o seu discurso historiográfico. O historiador escrever a partir de uma interpretação extraída das fontes, dos rastros humanos. Ele procura verossimilhança em seus textos. Por outro lado, o romancista não tem obrigatoriamente compromisso com as exigências científicas da pista da verdade. O romancista não precisa de evidências concretas para arquitetar sua narrativa. A grande lei do romance é a criação. No entanto, todo romance insere-se nas circunstâncias históricas que o engendrou, ou seja, as ficções literárias guardam relações com a sociedade e seus valores. Historiadores e romancistas problematizam o homem, ambos estão inseridos no espaço e numa dada temporalidade. Ao produzir arte através dos tempos, o homem quer compreender o seu mundo, intervir nesse mundo e comunica-lo aos outros homens. Nesse sentido, não é apenas os ditos documentos oficiais que são portadores de experiências históricas. A arte tem um caráter histórico. A literatura estabelece interlocução entre os homens de uma dada época. Portanto, escrever um conto, um poema, um romance é remar contra a mare das forças que desejam reduzir a vida à um simples sistema. Os primeiros romances Ocidentais apresentam os personagens em grandes aventuras, mostram os personagens em descobertas e em perigos. Aventurar-se é percorrer o mundo, é viajar no devir, é a união da ação com a contemplação. A aventura é heterodoxa com as verdades estabelecidas, é o mundo do aleatório, é a existência no sentido forte. Um mundo circunscrito dentro uma explicação absoluta não é o mundo do romance. O romance é a sabedoria da indeterminação do existir, é o conhecimento da incerteza das coisas. O romance é existência das incertezas que a modernidade científica jugou abolir do pensamento. A existência não está na esfera do foi, mas na esfera da possibilidade. O romance explorou a existência humana até seus últimos limites? Ora, se é inesgotável o impulso humano de criar formas de viver, então, não há sentença final para a existência humana. O romance acompanhará o homem ocidental como a maior arma contra a máquina da reprodução da técnica, contra a histeria do futuro, contra simplificação das coisas, contra o amesquinhamento do homem, contra as estupidez diárias, contra tudo o que nos reduz à simples abstrações da ditadura da razão... Nesse sentido, o discurso literário não está fora da história, carrega consigo os valores do tempo do escritor, e até mesmo a consciência de sua classe social. Entretanto, o saber histórico segue um método proposto e tem pretensões de cientificidade, procura o real nos acontecimentos e as construções de seus textos fundamentam-se em referências e fontes. Há entre a figura do historiador e do literato uma fina fronteira que os separa, os dois à sua maneira, se colocaram ao longo da História na questão de pensar o homem e seus mais caros desafios. Dançar nas fronteiras dos saberes é a melhor forma de capturar uma imagem da criatura humana em sua totalidade…