O LADO “C” Valdemar Neto Terceiro, poeta;

O LADO “C”

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Se colocássemos a arte em planos completamente diferentes – oposições – estaríamos fazendo o eterno correlato do que se entende por arte a partir do status quo da obra, de qualquer uma delas. Ok, ok! Vê-se isso mais tarde, mas quidiabéisso lado “c”? Mais um pouco a gente explica...

O lado “A” das coisas é tudo aquilo que compete ao que é útil, o não-resto: a obra final. Diga-se de passagem, que o lado “A” é a finalização total e relevante de qualquer trabalho, contudo, se dermos uma pintura social sobre isso, veríamos que o lado “A” é também a elitização do que se entende por arte, em muitos casos, aquilo que o público quer ver – o top of the mind do próprio público agindo sobre o artista. Soou esquerdista demais? É, talvez... Fica pior: geralmente o lado “A” ofusca o brilho dos outros lados, como se o artista criasse uma estrada de mão única e que não dá alternativa para quem vê/ouve/lê a sua obra. O resto que é resto cai no limbo vagando eternamente até um possível encontro com a superfície, mas com a nova marca de lado “B”. Este, de fato é uma (re) negação do que antes fora a parte boa da coisa. Mas o lado “B” ainda guarda um quê de originalidade implícita, mas ainda motivada. Pobre “B”, segundo plano nas coisas todas, desde os gregos, putz!

Se fosse possível imaginar um lado “B” para a criação divina de Higgs, restaria a matéria inexorável e escura que rola por aí a fora, nesse vácuo repleto de mitos -  o tudo não utilizável pelos deuses do CERN. Por aí, por aí... Divagar ainda faz sentido, certo? Só que, o lado “B” daria, mais ou menos, um planeta bizarro ou um noir de nós mesmos – versões acabadas, contudo, sem nexo ou anexo com a realidade “A” que existe por aí, popularizando caras e horas, povos e regiões, as outras versões, quem sabe...

Imaginar que a arte é bipolar e démodé quando se trata da colocação pública que tudo tem um top e um under, de fato, diminui e, de certa forma, limita imparcialmente o todo que se faz de arte. É de conhecimento popular: isso acaba por deixar réstia de sol nenhum para quem cria e que, de boa maneira, não se enquadra nestes lados dessa “guerra fria”.

Para os mortais, a abstinência dos rótulos! De que adianta ser o lado “A” quando se sabe que a arte é constituída de um universo por inteiro? Lado “A”, lado “B”, estar por essas bandas artísticas acaba por transformar tudo numa mesmice sem fim – autores que não escrevem o que não sabem – é, sabia que experimentar ainda tem graça? Sai dessa que o mundo é grande e a maior vantagem que idade contemporânea nos dá é a chance de criar o incrível; o chove-e-não-molha da poesia – e outras artes – dessas bandas vaga tanto por esses lados que quem é independente acaba querendo, sem querer, dá uma de filósofo-revolucionário... Deixa pra lá, fiquemos com o lado “C”.

É que o lado “C” seria o impensável ou o indizível. O que não se cria, o platônico... O lado “C” é o inconsciente que ainda não se sabe, a cria underground... Os rótulos são para que os dois primeiros modos de ver a arte pareçam relevantes quando na verdade não existe arte fora do inconsciente artístico. Elitizar e rebaixar as artes não faz parte, com certeza, da essência de ser artista: construir arte a partir da pureza do eu, sim!

Mas, e aí? Deixa pra lá... Não se pode negar que a arte é elitista nos dias de hoje... Fazer o quê? É a democracia... Mas isto é outra história!