O MURO DAS IDEIAS EM TINTA FRESCA

Prof. Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Este nosso momento parece tão avassalador quanto todos os outros que o precederam. Na verdade, digo-o caótico. Emergencial. O silêncio entre as massas assustava, todavia, o grito destas soa um tanto apocalíptico. Viver ideologicamente significa, agora, buscar refúgios utópicos longe do brandir dos gládios no epicentro da nova “revolução”. Cada qual na sua ingenuidade, direitas e esquerdas deixam no meio a situação crua, por ora ininteligível – as ideologias ladram noite afora para os veículos sem saber exatamente o que fazer quando suas mandíbulas famintas encontrarem um.

E aí, fazer-o-quê nessa solidão inerente dos não participativos e não utópicos da noite afora?

Fincamos bandeira em um terreno inóspito, onde o verde que há é de certo miragem do que as retinas desejam ver. O ponto máximo do literário numa sociedade-moeda como que vivemos atualmente não é o brandir de gládios, mas o de pena rude, dura e com tinta na ponta.  Ser escritor é ser alicerçado – e assim o penso – num ideal-racional atrelados às necessidades de um grupo social. O escritor ganha a faceta de radical, no bom grado, no momento em que abre mão das peculiaridades ideológicas que desarranjam do ideário individual. Nesse contexto, centra-se que o literário é que deve derivar a ideologia e não o contrário. As penas na mão do poeta são como bandeiras que traçam linhas individuais de pensamento. Claro que, seria infantilidade imaginar que todo escritor é o criador e não um repetidor de ideologias, afinal, a ideologia remonta a anterioridade do escritor, mas se o literário não fosse somente uma cornucópia representativa e sim um reconstrutor de discursos, provavelmente teríamos muros com ideias frescas no lugar das velhas pichações caducas dos tempos idos do rei.

O desafio, contudo, estar em literarizar um país que é analfabeto de sua própria história literária. A “diversidade cultural” do país nesses fatídicos tempos se limita, tão somente, ao que não interessa ao pensar, mas ao vestir, ao falar, ao usar. A cultura do país é mais de ostentação e adereço do que intelecto e sobriedade de pensamento. E o escritor se torna segundo plano (este essencialmente escritor: o capitão-mor das palavras e não aqueles que ficam zumbindo prosas, meros apetrechos para um falso intelecto...). A propósito da ideia de mudar a sociedade, nessas épocas de prós e contras, o literário deve ser o orientador intelectual e não uma mera parte da massa...

Fica a cargo dos vates dessa nova época, cheias de contras e mais contras, o literário tem de ser favor do raciocínio e do pensar... A margem da estrada, mostrando o caminho. Um muro das ideias com novas tintas...