O OLHO DO FURACÃO E OS ARREDORES DO CAOS Valdemar Neto Terceiro, poeta;

O OLHO DO FURACÃO E OS ARREDORES DO CAOS

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Senhores, viver a história não quer dizer, simplesmente, passar por ela a olhos vendados – viver a história é estar nas entrelinhas em novo verso, através dos olhos de quem lê. Ser o que há além, nos caminhos não ainda visíveis em crônicas, ousar o que nunca houve antes... Sei, sei! Afirmações à parte, a juventude ainda pode esperar. Quem dera, juventude.

O olho do furacão é o lugar inóspito entre o vento constante e a terra flagelada. No meio disso, o ser se despedaça até o pó de seus ossos se misturar aos vapores que nos dão vida – uma morte inglória, diria, se não fosse a coragem por estar nesse lugar de caos que é o olho de um furacão. O vento nos faz fechar os olhos devido aos seus viajantes homogêneos (os “ciscos”), uma coisa que nunca nos permite olhar pra frente e, ironicamente, só passamos a enxergar o caminho depois que choramos e expurgamos aquilo que nos cegava através de lágrimas doídas. O caminho fica árduo com todo aquele novo olhar bento à luz solar em retinas dilatadas por uma escuridão temporária. Mesmo assim, caminhamos como se o rumo estivesse não na estrada afora, mas no corpo adentro e cada passo é a certeza do caminho e não o contrário, onde o caminho é que faz o passo.  Distanciamos do olho do furacão e vislumbramos os arredores do que antes parecia um cosmos, até então, inviolável pela massa humana caminhante, em passos de vento feito por corações.

Foi nesse caminho que se fez a arte, um caminho criado pela tribulação de um furacão sem nome, exprimido entre nuvens e caindo em direção às cidades trazendo o pó que as urbes renegavam aos campos. Foi nesse caminho feito de passos cegos de vento que algum poeta resolveu cantar o que outrora se escondia para além das retinas ébrias da modernidade, agora destituída de trono por uma onda feita de nuvens que desceu ao âmago do trânsito, desligando semáforos e fazendo as pessoas se verem entre elas mesmas. Era um canto antigo que sempre se renovava pelo caminhar das idades e, dentre aqueles tijolos quebrados e cabos retorcidos, os passos nos arredores do caos começavam a reconstruir o inconcebível: a utopia. Nem sempre saía a imagem romântica da vida, contudo, cada verso era ouvido num instante de criação e não se calava até que o mundo começasse a respirar a plenos pulmões cheios do que antes era apenas a cinza dos que ficavam no olho do furacão.

Nas constelações vistas por todas aquelas noites calmas, o canto era ratificado pelos antigos. Lembrou-se do furacão, do caos e dos passos solitários nas cidades desertas. O que haveria amanhã? Quem seriam os poetas do antes?

E do passado se faz verso do futuro, daqueles viveram o caos pra nos trazer estrelas.