O que dá significado à sua vida?

Fui uma menina muito frágil e magrinha, apelidada de Olívia Palito. Aprendi a ser invisível para me proteger das surras que levava do meu pai e irmãos. Com seis anos, já lia e escrevia. Ainda menina li e reli todos os livros da biblioteca do meu pai. História do povo judeu e o Holocausto, biografias, romances, Sartre, Freud, Erich Fromm... Encontrei nos livros o refúgio para me proteger de um mundo de violência, gritos e brigas.

Ler os livros de Simone de Beauvoir durante minha adolescência, especialmente "O Segundo Sexo", me ajudou a construir uma trajetória muito diferente da vida da minha mãe. Foi nesta época que comecei a escrever diários, um hábito que me acompanha até hoje.

Posso sair de casa sem dinheiro e sem celular, mas nunca sem caneta e papel. Posso passar dias sem comer, sem dormir e sem falar com qualquer pessoa, mas, desde os meus 17 anos, não passei um dia sequer sem escrever.

Escrevo em todos os lugares e em todos os momentos. Escrevi as mais de 600 páginas da minha tese de doutorado sentada na grama do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Acordo durante a noite e registro meus sonhos, caminho na praia e anoto minhas ideias, escrevo até mesmo no banheiro.

Muitos me perguntam: "Você lê os seus diários?". Não, nunca li uma só linha deles. Muito mais do que registrar detalhes do meu cotidiano, meus diários são o meu lugar de autoconhecimento, de desabafo e de conforto. Aprendi a resolver os meus problemas escrevendo neles.

Em "Cartas a um Jovem Poeta", Rainer Maria Rilke disse:

"Investigue o motivo que o impele a escrever: comprove se ele estende as raízes até o ponto mais profundo do seu coração, confesse a si mesmo se morreria caso fosse proibido de escrever. Pergunte a si mesmo, na hora mais silenciosa da madrugada: 'Preciso escrever?'. Desenterre de si mesmo uma resposta profunda. E, se ela for afirmativa, se for capaz de enfrentar essa pergunta grave com um forte e simples: 'Preciso!', então construa sua vida de acordo com tal necessidade".

Já perguntei a mim mesma, nas minhas noites de insônia: "Preciso escrever?". Sim, preciso! Eu não saberia de que forma viver se não pudesse escrever.

Você alguma vez já perguntou a si mesmo, na hora mais silenciosa da madrugada, o que dá significado à sua vida?

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/miriangoldenberg/2016