O SANTO OFÍCIO DE SER ESCRITOR

O SANTO OFÍCIO DE SER ESCRITOR

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

O tempo urge para o bem das palavras.

Correm os dedos, linha por linha, verso por verso. Do sol oriente aos rios do ocidente explorados, tão somente, pela tinta multicor da caneta que usas. O olho só vê a tua paisagem literária no delírio do sono e então, uma pintura em versos ou prosas. Desmistificadores de mundos, tais escritores: retornam do limbo para sobressair uma boa-nova na pele e mesmo esse globalizado enigmático, de oceanos infindos, tem de parar para ouvir seus versos loucos, frágeis, compulsivos e intermitentes. Transeuntes continentais os carregam no silício e ao leve tocar do dedo, deixam mundos inteiros se perderem binários.

As tábuas de pedra e as cuneiformes prosas viajaram para um tempo além. Só este inventor de mundos, ainda que em suspiros derradeiros, sobra por detrás dos montes, ora em fado, ora em samba... Ora fidedigno monge simbólico ou altruísta dos confins da poesia. Só a este, o escritor do pulso verdadeiro, o éden dos fins do tempo.

Mal tempo sobressai do horizonte. As reais retinas do agora se negam a velejar pelas linhas traçadas no desdém do mundo cacófano. A solicitude de ideias impele que o dedo ávido de vida e o tremor sudorífero das noites insones mantenha o cronista pelo percurso das horas, de olhos em vidro, trazendo a flor do Lácio aos homens do continente. Pedinte de olhos, o presente perfeito manifesto não se atém aos temores do vate, cronista e do prosaico evangelista que relega sua obra à poeira das tardes infernais entre as paredes das velhas bibliotecas. Quem ousaria tamanho fardo de ler suas obras mudas aos olhos aprendizes? Os passos dos anos se arrastam e o futuro sobressai mais misterioso que o amanhã da alma.

O fogo fátuo do verbo ainda reluz em eternos espelhos. Um farol solitário acende nos bancos da lotação, na fila, na ébria falta do que se fazer. Um farol para todas as direções, dilatando a íris dos que não se atreveram a sentir o gosto agridoce das palavras eternas daqueles aquém da liberdade. O verbo ainda reluz, meio que silencioso, entre os paralelepípedos, os muros, os gritos de ordem aos sortilégios do progresso. É o que faz o ser ter mente – ser a muda num campo vasto da cegueira oblíqua e proposital que a falta do verbo-escritor faz.

E a palavra ruge para o bem dos seres humanos, enfim.

 

À Bilac e Jorge de Lima, cancioneiros da nação.