Ordinary life

Duas mesinhas. Uma delas me serve de depósito de livros, trabalhos escolares e provas que trago do trabalho. A outra, praticamente ocupada pela tv de tubo. 14 polegadas.

 

É uma suite de fato muito pequena, mas, ainda assim, tenho um frigobar.

Tenho chuveiro quente e uma janela com cortina que nunca abro. Por isso, o quarto cheira a mofo, mas só percebo quando me ausento da suíte por algum motivo.

Comprar comida, por exemplo.

 

Após voltar da escola onde leciono, passo as tardes deitado na cama lendo teoria literária até sentir dor nas costas. Viro para um lado, para o outro. 

 

Toda tarde vou ao mercado. Há um bem próximo à pousada onde resido, mas lá não vende bebidas alcoólicas. Além disso, não tem uma boa variedade de produtos como o outro, que é mais distante.

 

Toda tarde vou lá. Compro frutas, salsicha,  às vezes um biscoito, cerveja e água com gás.

Na verdade, toda tarde vou lá exercitar um pouquinho da minha chama de pequeno burguês. Não faço compras. Eu flano.

 

Me sinto confortável naqueles corredores, mesmo não tendo dinheiro para comprar mais do que 200 gramas de salsicha, cerveja e uma água com gás.

 

Me sinto confortável, embora um peso sempre me oprima o peito.

 

Consigo imaginar as pessoas que realmente vão ali fazer compras me encarando. Pobreza, assim como a riqueza, tem um cheiro, uma cara, ambos insofismáveis.

Sabem que, exatamente hoje, não tenho mais do que uma nota de 5 e umas moedas enferrujadas no bolso.

 

Parte de meu desconforto está na forma de andar e lidar com o espaço.

 

Sei disso, pois quando recebo pagamento, quando tenho crédito no cartão, me movo com destreza, quase deslizo pelos corredores.

Mas, no fim do mês, a destreza dá lugar a pernadas desengonçadas, inabilidade de coordenar gestos; pura inaptidão social.

 

A pior parte é me esbarrar com um conhecido ou colega de trabalho. A dificuldade começa pela vestimenta.

 

Ando sempre como se o mundo estivesse próximo do fim. Blusa amassada, chinelo de dedo surrado, bermuda de brechó. E mãos no bolsos, sempre.

 

“Oi”, “oi”, “Tudo bem”, “tudo bem”. A pessoa com o carrinho cheio e eu com 200 gramas de salsicha, uma cerveja e uma água com gás.

 

Na volta para casa, mal e mal consigo disfarçar que me sinto inadequado. Tropeço em alguma pedra imaginária, endureço o andar, coluna ereta, mão no bolso.

 

Engraçado que quando é começo de mês e a grana cai na conta, eu vou ao mercado comprar as mesmas coisas quando liso. Mas tudo muda.

 

Quando me esbarro então com o mesmo conhecido ou colega de trabalho, me sinto como Eddy Murphy no filme “Um príncipe em Nova York”.

 

Honestamente, quando tenho dinheiro, pareço muito mais gracioso.

Por: Eduardo Timbó