Para ler antes de morrer - A esfinge

Antes que me acusem de falar apenas de obras estrangeiras aqui, abro espaço também para discutir a literatura brasileira do século XIX e do início do século XX. Não começo com as obras consagradas, mas com um livro esquecido e pouco lido. Trata-se de aEsfinge, de Afrânio Peixoto. Descobri esta instigante obra, se não me falha a memória, em 2012, quando pesquisava sobre os salões e saraus do século XIX. A literatura se apresentava para mim como um discurso capaz de representar aqueles espaços. Daí o meu interesse pelo romance em questão, já que ele é ambientado nos salões mundanos, e cuja descrição é feita em detalhes. O autor, um frequentador daqueles espaços no Rio de Janeiro, então capital federal, apresenta-os como locais de intriga, espaços de discussões políticas, de questões econômicas, literárias e artísticas. Locais de flertes e de construção de alianças.
 
A Esfinge, romance de Afrânio Peixoto, editado em 1911 pela Livraria Garnier, tem como personagens centrais Paulo de Andrade, um escultor que mora no Rio de Janeiro, oriundo do interior da Bahia, e Lúcia, sua prima, moça de uma família carioca da alta sociedade, frequentadora dos salões, que virara moda no entresséculos (final do século XIX e anos iniciais do século XX), na capital federal, onde se passa a maior parte do romance.
            O enredo gira em torno da angústia de Paulo, que pretendia desposar Lúcia, que parece estimá-lo e amá-lo, mas que acaba se casando com um deputado de posses do Ceará, que a conhece nos bailes em Petrópolis, para onde a alta sociedade carioca se debandava na estação quente, para seus veraneios elegantes e atividades mundanas.
            Quase todo o romance é ambientado nos salões mundanos, cuja descrição é feita em detalhes, verdadeiro “documento histórico” destes ambientes, locais de intrigas pessoais, espaços de discussões políticas, questões econômicas, literárias e artísticas, de construção de alianças e de, principalmente, flertes: espaços de exibição das posses familiares, da última moda masculina e feminina e da sedução, onde a mulher parece brilhar e fazer o seu jogo de sedução.
No entanto, o autor, profundo conhecedor desse espaço mundano, pois foi frequentador deles, segundo nos diz Brito Broca[1], parece usá-lo para tecer críticas à alta sociedade, frequetadora desses locais: assim é que o tênis, os chás e os salões são apresentados como o momentos e locais dos flertes, das intrigas, dos olhares maldosos, dos comentários nada lisonjeiros. O salão é o local onde se revela a hipocrisia dessa sociedade, espaço para selar alianças e casamentos, em detrimento do amor: é assim que Lúcia, mulher apresentada como doce, meiga, prendada, aceita casar-se com Vicente Câmara, homem de posses, prestes a ser nomeado para o senado, sem apresentar por ele nenhum sentimento, senão admiração pelos seus galanteios, em detrimento de Paulo, que parece amá-lo, mas que é apenas um escultor sem fama.
            É assim também que é apresentada Wanda, prima também dos personagens centrais, ambiciona, que casa-se com Brandão, homem bonito, estimado nos salões e de fama afortunada.
            O próprio personagem central, Paulo, homem simples, porém de virtudes elevadas, que não suporta a alta sociedade e as rodas dos salões por sua hipocrisia e seus frequentadores maldosos, que só os frequenta para estar perto de sua amada, parece confirmar a convicção de que o autor usa o romance para tecer críticas severas à alta sociedade carioca de sua época, mais afeita às frivolidades do mundanismo do que às coisas mais sublimes como a própria arte, representada por Paulo. Este não suporta a alta sociedade, mais ainda após sua decepção, que o fez querer fugir daquele mundo, primeiro, buscando esquecê-lo, depois, buscando em sua arte uma razão de viver. “Vivia daí por diante para ela”. [2]
            Parece haver para o autor uma relação inversa entre arte e correspondência no amor. A decepção de Paulo parece fazê-lo grande artista, a satisfação de deu desejo, a correspondência do amor da prima, mata o artista dentro dele, resumido na frase de Dr. Lisboa, após visita a casa de Paulo e depois de este ter se encontrado com Lúcia e resolvidos os dois a vida em conjunto: “E pensei com tristeza: um grande artista de menos... um pobre pai de família de mais...” [3]
            No romance o autor denuncia a corrupção de parte da imprensa e certamente da imprensa mundana, isto é, que dá visibilidade a este mundo, estando a serviço de favores, deixando de ser “um sacerdócio” para se tornar uma “indústria” a serviço do capital, ataca a política republicana, representada por Câmara, como corrupta e que faz mal à nação, contesta a ideia da República como fomentadora do progresso e denuncia a dicotomia das ideias dominantes na época de, ora condenar a nação por sua “raça inferior”, ora defender o seu futuro promissor pelas riquezas que possui.
            O título do romance parece sugerir o próprio dilema de Paulo, a sua incessante busca pela satisfação amorosa (Lúcia) e pessoal (a arte), numa relação inversa: a Esfinge pode muito bem ser representada pela mulher; um verdadeiro enigma a ser decifrado. A mulher quando não decifrada engole o homem e torna-o um desgraçado. Paulo parece querer decifrar Lúcia, e, enquanto não o faz, é engolido por sua decepção, torna-se triste, mas se revela grande artista.
Quando, no final do romance, parece decifrá-la, é engolido por Lúcia, que resolve ficar com ele e, assim, mata, destrói o artista dentro dele. O talento do escultor está em sua decepção? A decepção na arte está na vida burguesa? Paulo parece ter sido engolido pela sociedade que não suportava. Foi engolido pela esfinge ou ao decifrar o enigma se tornou um homem desgraçado como o próprio Édipo? O criador foi engolido pela criatura?
 



[1] BROCA, Brito. A vida literária no Brasil – 1900. 4.ed. Rio de Janeiro: José Olympio: Academia Brasileira de Letras, 2004.
[2] PEIXOTO, Afrânio. A esfinge. 12.ed. São Paulo: Clube do Livro, 1978, p. 172.
[3] Idem, p. 198.

 
 
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