SACO CHEIO, CONTEMPORANEIDADE Valdemar Neto Terceiro, poeta;

SACO CHEIO, CONTEMPORANEIDADE

 

Valdemar Neto Terceiro, poeta;

 

Um dia, peguei um daqueles livros aí, teen, pra folhear numa das idas às livrarias da vida. Ele não estava sozinho: havia ainda inúmeras edições ali, todas bonitinhas e enfileiradas, coisa que deixava um deleite bacana pra quem via aquela estante. O tema? Sei lá, algo de vampiros fantásticos em cidades com nomes ingleses e tal, eu, meio que achando que o autor era americano ou mais um inglês da rota do fantástico. Nada: o cara era de Itu, se não me falha a memória... Vai entender, não é? Botar o nome da cidade de, qualquer coisa, moonsfield valley, localizada no Vale do Paraíba, interior paulista. É, vai entender essa querência de ser gringo até nos batizados citadinos. Seria uma coisa contínua, acho, esses romances teens, os romances olds e por aí vai... Sexo e adolescência; parece que a sociedade anda caducando de vez.

Saco cheio! Toda vez que lançam um Best-seller, vem uma “monografia” logo em seguida sobre o dito livro. Teóricos dos Sellers... O que eles pensam? O que há de contribuir? Sei lá, acho que todos devem concordar que essa vulgata contemporânea destoa da identidade do leitor, ditando moda e criando o ritmo.

Saco cheio! Criou-se uma situação muito complicada com essa coisa contemporânea da literatura: qualquer asneira banal e insignificante pode ser literária e tudo deixou de ser assunto encerrado pra ser motivo de prosa! Poesia que é bom? Só nos pequenos círculos e olhe lá. A literatura de verdade se encontra nos recantos do subjetivo e não nos dentes comerciais dos vampiros brilhantes do século XXI. Reacionário? Talvez... Só creio que esses romanceados onomatopeicos não dizem nada. E a infelicidade é que nasce uma nova forma de leitura em que os verdadeiros autores – sim, aqueles lá do amado-odiado cânone – deixam de ser visto em nome de uma cultura de massa na literatura contemporânea: cultura de leitura fácil, que não apega na mente e não define um pensamento crítico pra quem lê, pelo contrário, o retira e o torna alguém vazio. Sei lá, é tão raro ver alguém lendo Cecília, Drummond, Assis... A contemporaneidade está destituindo estes aí do seu lugar de práxis para se colocar em outro de obrigatoriedade acadêmica.

Caio nessa de “o tempo dirá”. O vampiresco, o semideus e os mortos-vivos se tornarão uma literatura mais séria no futuro? Acho difícil. As coisas andam a duras penas e cada um leva em si uma individualidade maior ainda com relação a isto. Antes a literatura nos reunia pra debater ideias e conceitos, hoje reúne para debater moda e fofoca. “E assim caminha a humanidade”, só Deus sabe para onde...

Um adendo: gosto de olhar minha biblioteca e ver meus antigos e bonitinhos livros, todos destoando da cor, cada qual com sua harmonia interna. Têm alguns contemporâneos também, uma galera aí que vai a fundo à imaginação sem precisar cair em um modismo chato de quem só pega a fórmula e a aplica em uma cacofonia literária que dói aos ouvidos do nosso narrador interno.

Essa idade em que a gente via ficando velho ainda tem muita coisa pra informar... É deixar quieto e esperar o dia seguinte, por enquanto, saco cheio!